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Da Arte da Sobrevivência

21.06.22

... lamento mas Portugal é racista


sobrevivente

Ventura 04.jpg

“Portugal não é racista” é a frase que se pode ler nesta faixa exibida por André Ventura, o líder da Extrema Direita portuguesa, durante uma manifestação em Junho de 2017, em Lisboa. 

“Portugal não é racista”, mas curiosamente todos os elementos que constam nesta foto e que encabeçavam esta manifestação são caucasianos. Não há nenhuma minoria representada nesta foto. 

Volto ao tema da Extrema Direita em Portugal porque este é um assunto que me preocupa. Preocupa-me realmente.  

Choca-me a foram como a História, como as lições que a História nos deu e dá, estão a ser deliberadamente ignoradas por variadíssimas autoridades, organizações, entidades e personalidades públicas. 

Não sei se tal acontece por considerarem que a Extrema Direita não representa qualquer perigo, mas se essa é a sua convicção então, estamos seriamente em problemas. 

Durante algum tempo, e tive inúmeros debates acerca disto, a estratégia geral, a estratégia de muitos responsáveis políticos, foi a de não se dar visibilidade a Ventura e ao seu partido. A ordem era ignora-los. Achava esta gente que não falando do problema ele não existiria. Que acabaria por se extinguir. 

Falei, alertei uma e outra vez sempre contestando essa posição. Estava certo de que não falar ou ignorar Ventura e a Extrema Direita não ira resolver nada. Aliás, tal atitude seria mesmo a ideal para eles e a pior de todas para nós. 

Na altura e estávamos em 2016, Ventura conseguiu entrar para o Parlamento. Elegeu um deputado. E impressionantemente, nem nesse momento soaram os alarmes. 

Quatro anos depois, são a terceira força política no Parlamento. E pior ainda, preparam-se para ultrapassar a tradicional Direita portuguesa representada no hemiciclo pelo PSD, um dos partidos fundadores da nossa Democracia. 

Ventura e o seu partido encarnam tudo o que é de mais negro que têm os portugueses e Portugal.

Hoje, sabem como capitalizar essas características, como as rentabilizar e as converter em votos. 

Não se trata apenas de ser uma organização fascista, trata-se sobretudo de apresentarem um discurso populista de Direita que vai de encontro ao sentimento da esmagadora maioria dos portugueses. 

A Extrema Direita apresenta-se não apenas como uma organização, a única organização capaz de salvar o País, e nem se inibem de afirmar que pretendem mesmo acabar com o actual regime democrático, como também fazem do racismo o seu slogan de campanha 

Nas últimas eleições nacionais, avançaram com o conceito “dos portugueses de bem”. Um termo abstrato que nada significa, mas que serve de toldo que abrange e onde cabe toda a gente. Mas a questão é quem define quem são estes tais “portugueses de bem” e quem decide sobre essa propriedade. Claro está que a resposta é óbvia, decide e define a Extrema Direita e segundo os seus apetites, vontades e interesses momentâneos. 

Tristemente Portugal é um País racista. E é normal que ainda assim o seja.  

Não apenas e só por causa da sua História, lembrar que ainda há menos de cinquenta anos Portugal era uma potência colonial, estatuto que manteve e assumiu durante mais de quatro séculos, como também é um País, pelas suas características geográficas e políticas, que o “empurram” por assim dizer, para esse sentimento. 

Sendo que faz fronteira apenas com Espanha, uma construção legal assente sobre os despojos das várias nações ibéricas invadidas por Castela Leão, uma realidade com aspirações imperialistas e responsável pela tentativa de genocídio e eliminação de todas as diferentes regiões e culturas peninsulares 

Uma proximidade, uma relação desproporcional que ao longo da História fomentou uma crescente diferenciação entre aqueles que são o nós e o outro. Neste caso o vizinho fronteiriço. 

Com os Descobrimentos, a aventura marítima portuguesa, e a conquista de diversos territórios pelos diferentes continentes do Mundo, muito por conta do espírito da época e da ideia eurocêntrica do Mundo, também os portugueses não encontraram dificuldade em assimilar o preconceito darwinista da evolução natural das espécies e a entender todos os Povos com que se cruzou e encontrou durante essa epopeia, como Povos primitivos. Povos menos desenvolvidos, menos inteligentes que o europeu. Que é como quem diz o homem branco. 

Não por acaso os portugueses se transformaram nos maiores comerciantes de escravos do Mundo, num curto espaço de tempo. 

Ora todas estas condições, todas estas circunstâncias levaram os portugueses e Portugal enquanto entidade, a fazer seus um conjunto de comportamentos, de vícios racistas e xenófobos. Traços que ainda hoje se mantêm até aos dias de hoje. E não é difícil de compreender o porquê dessa permanência. Até há menos de cinquenta anos, Portugal era uma potência colonial. E não é de um dia para o outro, muito menos apenas da transformação ou alteração de regime político, que estes traços desaparecem e passam a pertencer ao passado. 

Não é incomum, nos dias de hoje, assistir a comportamentos de natureza racista. Sejam eles manifestados através de expressões populares, sejam eles manifestados através de comportamentos individuais e colectivos, sejam mesmo eles reflectidos através das acções ou comportamentos do Estado. 

Os exemplos mais gritantes que posso utilizar e trazer a esta discusão, assim de cabeça e sem procurar ou me documentar, são aqueles que vamos tomando consciência através da Comunicação Social e que se reportam a incidentes ocorridos entre elementos das autoridades e comunidades dos chamados bairros sociais. 

Situações como violência policial sobre cidadãos de descendência africana, por exemplo, em concelhos como os da Amadora ou Almada, são frequentes. Bairros como os da Cova da Moura, na Damaia, Amadora, ou os chamados Bairros das Cores, o Bairro Cor de Rosa, Bairro Branco e Bairro Amarelo, no Monte da Caparica, em Almada, e paredes meias com o Hospital Garcia de Orta, são não só ou apenas frequentes, mas uma constante nas vidas destas comunidades. 

Os números quanto a detenções por delitos menores, revelam uma enorme diferença entre cidadãos portugueses de descendência africana e cidadãos portugueses de descendência europeia. 

Mas esses indicadores de racismo sistémico e institucional não se extinguem apenas quanto à actuação das forças de segurança. Também os podemos encontrar quanto à empregabilidade, nomeadamente na Função Pública, quanto aos cargos e posições profissionais que ocupam, quanto ao acesso a créditos bancários, acesso e presença no ensino superior, enfim, numa série de dimensões da nossa vida enquanto comunidade.  

São os números que fazem o nosso retrato social enquanto comunidade que acabam por revelar esta dura realidade. 

Se questionarmos um qualquer português ou portuguesa se é racista, a esmagadora maioria irá negar ter essa ideia ou convicção. Ninguém se vê ou entende como racista. Excepção feita a alguns energúmenos, mas esses também existem. 

O cidadão comum não se vê ou entende como racista, mas a verdade é que este é um sentimento profundamente enraizado em cada um de nós. A verdade é que todos acabamos por manifestar o “nosso racismo” de forma inconsciente. Sem mesmo nos apercebermos disso. 

Por exemplo, expressões populares como “trabalhar que nem um mouro”, ou “trabalhar que nem um preto”, a própria expressão “um preto” ou “preto”, revelam o racismo sistémico e cultural de que falo. 

São expressões aparentemente inofensivas, mas não são. São expressões ofensiva, injustas, retrógradas e reaccionárias que fazem parte das nossas Vidas. São expressões que reflectem profundos e enraizados sentimentos. Reflectem uma matriz cultural e educacional que nem nos apercebemos delas ser portadores. 

E é apelando a estes sentimentos, tendo consciência de que eles existem e são partilhados por todos, que Ventura e os fascistas encontram forma de fazer chegar o seu discurso de ódio aos portugueses. Não de o fazer chegar como principalmente fazer esse discurso ser identificado por cada um de nós. 

Já todos ouvimos a Extrema Direita afirmar “os portugueses primeiro”.?  E não será difícil a qualquer uim de nós, particularmente aqueles que vivem, que sobrevivem com extremas dificuldades económicas e/ou financeiras, concordar cegamente com tal afirmação.  

O problema é que esta afirmação é perigosa. Extremamente perigosa. 

Mas afinal quem são os “portugueses” de que fala Ventura? Fala ele de todos os portugueses? Ou só de alguns dos portugueses? Fala ele de portugueses no sentido de quem tem a nacionalidade portuguesa? Ou fala ele dos portugueses enquanto elementos possuidores de uma série de traços étnicos? Acho que ele fala destes segundos. Fala de “brancos”. Aliás, por entre as suas vergonhosas interacções com várias comunidades etnicamente minoritárias, há uma que se destaca. Aconteceu em 2019, no Seixal, durante uma visita ao Bairro da Jamaica, um “bairro” que mais não são do que três prédios cuja construção foi suspensa nos anos 70 por ordem da autarquia, por questões de legalidade. Os prédios, ao longo do tempo, acabaram por ser ocupados por imigrantes africanos e suas famílias, assim como por membros da comunidade romani. Enfim, foram sendo ocupados por aqueles que, infelizmente, se viram em situações de extrema pobreza e sem habitação. 

É desta interacção da qual acabou por ser condenado ao pagamento de uma indemnização depois de ter classificado uma família cigana como “traficantes de droga e ladrões”. Acusações que, considerou o tribunal, eram falsas. 

Ainda que posteriormente condenado em tribunal, na altura tais palavras encontraram um expectável apoio da opinião pública. Reflectindo assim um sentimento generalizado quanto às minorias. 

São as minorias, os tais portugueses que estão fora dos “portugueses primeiro” de que fala. São afrodescendentes e todos os outros. Numa ideia, os não “brancos” 

E é o uso deste vocabulário que encontra adesão junto dos eleitores. É esta identificação que cada um sente quando confrontado com este tipo de linguagem, e eis que surge o racista que habita em cada um de nós. 

É uma questão cultural, educacional e que deve ser combatida. Mas que Ventura e a Extrema Direita alimentam e vivem dela. 

O racismo é um cancro. É uma doença social que apenas divide e não agrega. É um atentado aos Direitos Humanos. Um atentado aos Direitos de cada um de nós. Até porque, como dizia o escritor, “primeiro vieram buscar os judeus, e eu não disse nada. Depois vieram buscar os comunistas, e eu não disse nada. Por fim vieram buscar-me a mim, e não havia ninguém para dizer algo”. E será assim que tudo acontecerá. 

“Portugal não é racista”. Lamento, mas sim é. Portugal e os portugueses são racistas. E por incrível que possa parecer, eu não os culpo. Não os culpo porque foi assim que foram educados, aculturados. Foi assim que lhes deram o Mundo a entender. Culpo sim, os portugueses, que não querem crescer e se educar quanto a isso. Essa recusa é para mim, inaceitável. Mas compreendo o seu sentimento de partida. Já mão compreendo a razão de se recusarem a ser esclarecidos quanto a isso. 

E será esta recusa, será este desconfortável conforto que nos irá conduzir a um aumento do apoio popular à Extrema Direita. 

Ventura sabe falar aos portugueses. Aquilo que diz faz-lhes sentido. É-lhes familiar. Como se recebessem das suas palavras a validação para sentimentos e ideias as quais são apenas “senso comum e lógicas” aos seus olhos.  

Mesmo que percebendo a barbaridade que estão a ouvir, mesmo percebendo a imoralidade da mensagem que recebem há ali uma identificação, uma validação para sentimentos que reconhecem como existir em si mesmos.  

E será também por aqui que a nossa Democracia estará em perigo. 

Por isso, hoje e ainda a esta distância do dia do não retorno, é necessário que todas as forças democratas, que todos os democratas se unam contra esta canalha criminosa.