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Da Arte da Sobrevivência

22.06.22

... do Serviço Nacional de Saúde


sobrevivente

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Há dias que andamos a discutir o Serviço Nacional de Saúde. Melhor, não se discute o SNS, aquilo que se tem feito, por boa parte de muitos, é criticar o SNS, os serviços que presta, os serviços que não presta, médicos, enfermeiros, auxiliares, enfim, todos os profissionais de saúde. 
 
Aquilo que se anda a fazer, em rigor, e à boleia dos trágicos episódios que se vão conhecendo e que lamentavelmente, fazem parte do quotidiano de quem trabalha no sector, é a tentar denegrir, desvalorizar, destruir um dos pilares da nossa Democracia. 
 
Clamam muitos contra o SNS. Seja porque não há capacidade de resposta, seja porque as filas de espera são imensas, porque não há médicos e enfermeiros, porque no fundo, dizem-nos, “o SNS é uma treta e no privado é que é bom”. 
 
Aquilo que se esquecem deliberadamente de nos dizer, é que quase metade do orçamento para a o Serviço Nacional de Saúde é entregue a empresas privadas, que apenas existem e sobrevivem à conta dessas verbas. Aquilo que não nos dizem que que cada vez que são anunciados milhões e milhões para o Serviço Nacional de Saúde, apenas metade daquilo que anunciam é na verdade investido e canalizado para o SNS. Aquilo que não nos dizem é que andam há anos a tentar deteriorar o SNS de modo a que as condições, seja para utentes sejam para os profissionais, cheguem a um ponto, que é impossível argumentar contra aqueles que querem o seu fim. Isto porque, como é claro, chegaremos ao ponto em que as evidências irõ ultrapassar qualquer argumento racional 
 
Os sucessivos Governos conseguiram, imagine só, degradar a tal ponto as condições de trabalho e remuneratórias de todos os profissionais de saúde que a estes não resta outra alternativa que não abandonar o SNS e procurar trabalho no privado. O mesmo privado que posteriormente, tem o SNS que pagar para receber utentes. 
 
Ora se não encontra aqui uma total inversão de toda a lógica, não lhe consigo pintar outro quadro mais flagrante. 
 
Tem sido política e objectivo dos sucessivos Governos reduzir ao mínimo o investimento em equipamentos, em estruturas ligadas à Saúde. Tem sido política e objectivo dos sucessivos Governos reduzir ao mínimo, ou menos não realizar qualquer actualização salarial a todos os profissionais de Saúde. 
 
Como se traduzem estas políticas? Traduzem-se na fuga de profissionais para o privado. Traduzem-se na redução da qualidade dos serviços prestados seja por falta de profissionais, seja porque os equipamentos estão ultrapassados, desactualizados. 
 
O que fazer então? Solução milagrosa liberal. Contratar os serviços que deviam ser competência e responsabilidade do SNS a privados. E pagar principescamente, os mesmos serviços. Serviços realizados por unidades de saúde que, pasme-se, pertencem a grupo económicos com ligações políticas.  
 
 
E no meio disto tudo, quem entrega a saúde pública aos privados, braços ao alto porque não há médicos, porque não há enfermeiros ou porque, infelizmente, estas carências acabam por se traduzir em vitimas mortais. 
 
É perfeitamente compreensível diferentes posições acerca do papel do Estado num sector como o sa Saúde. Aquilo que não é compreensível é manipular a discussão, falsear a realidade e tentar, como sempre, transformar um Estado que deve servir a todos num Estado que serva apenas alguns.