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Da Arte da Sobrevivência

23.06.22

… do caso da Jéssica e o que ele diz acerca de nós


sobrevivente

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Ficamos hoje a saber de mais um grotesco, trágico e inadmissível caso de violência sobre menores, caso que resultou na morte de uma menina de três anos às mãos da “ama” que afinal era agiota da mãe 

O caso é mais um por entre as centenas que sucedem todos os anos e que têm como alvo menores. 

Em Setúbal, paredes meias com Lisboa, a Jéssica perdeu a vida enquanto ao cuidado da “ama”. Uma morte causada por espancamento.  

Aos três anos de idade, e segundo aquilo que foi tornado público, custa-me ter que o dizer, mas a Jéssica era uma menina marcada para morrer. E muito provavelmente, marcada para morrer desde o o momento em que entrou em casa da “ama” 

Sabemos hoje que em causa estaria uma dívida de €400 contraída pela mãe, Inês Tomás, junto de uma senhora. Pessoa essa que percebendo da dificuldade de Inês em pagar a dívida, resolveu utilizar a pequena Jéssica como “garantia” e espancou a criança até à sua morte. 

Segundo o que foi tornado público a própria “ama” terá fugido após a morte da criança, refugiando-se em Leiria tentando escapar às autoridades, mas, entretanto, já foi detida pela Polícia Judiciária 

Assim como o marido e a filha. Estão todos sob custódia policial. 

Esta é, em traços largos, a história da Jéssica. 

Importa sim, neste momento, e segundo aquilo que é a minha convicção, perceber o que este caso, o que mais este hediondo caso, diz acerca de nós. O que revela sobre todos nós enquanto pessoas, enquanto comunidade, enquanto seres humanos. 

Pessoalmente a violência é das realidades que mais abomino e me revolta. Isto porque a violência é sempre levada a cabo, é sempre exercida assente num plano de desigualdade. O mais forte sobre o mais fraco. É sempre um acto de enorme e tremenda cobardia.  

Acho inquestionável a injustiça que recai sobre a vítima. Ou as vítimas. Acho que nisto todos concordamos. Mas vou mais longe que isso. Acho absolutamente inquestionável, injustificável e sem qualquer outro motivo que não a condenação e o repúdio todos esses actos.  

Mais ainda quando levados a cabo, ou contra crianças, idosos, mulheres, pessoas com debilidades ou fragilidades físicas, psicológicas ou emocionais. Contra aqueles que se encontram em situações de momentânea ou permanente vulnerabilidade. Situações contra animais. Situações de abuso onde a força é ferramenta de intimidação, coação, abuso, etc. 

Abomino tudo isto. E confesso, não tenho qualquer tolerância para com quem as pratica. Nenhuma. 

Pior ainda quando o motivo, como neste caso, envolve dinheiro. Extorsão. Agiotagem.  

Mas este caso deve-nos fazer pensar. 

E deve fazer pensar não apenas porque morreu uma criança com três anos, mas também quem é esta gente que não tem qualquer problema em violentar uma criança para obrigar adultos a cumprir com aquilo que é a sua vontade. 

Quem gente é esta? Que gente é esta sem o mínimo respeito pela vida alheia? 

Mas quem é esta gente que actua desta maneira? Que animais são estes que vivem por entre nós? 

Como é possível pessoas, melhor, monstros destes habitarem no nosso meio?