Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Da Arte da Sobrevivência

07.06.22

... da violência doméstica. Os números da nossa vergonha


sobrevivente

 

Texto 07.jpg

Foram hoje divulgados os últimos números quanto a vitimas mortais em resultado de violência doméstica

Os número fazem capa do Jornal de Notícias e surgem motivados pela morte de Sílvia Mendes, uma mulher de 46 anos, assassinada a tiro pelo ex-companheiro quando chegava ao local de trabalho. O caso aconteceu em Felgueiras, na última segunda feira.

A Sílvia foi a décima terceira vitima mortal este ano. 

Treze mulheres em apenas cinco meses. São quase tantos casos quantos os registados no ano passado, período em que 16 mulheres foram assassinadas.

Os números da violência doméstica são, gostemos ou não, o reflexo de quem somos enquanto comunidade. Enquanto sociedade. Enquanto País.

Pessoalmente tenho muita dificuldade em entender, em encontrar qualquer explicação para eles. Pessoalmente abomino esta realidade. Abomino todos os agressores. 

Segundo as diferentes autoridades e organizações que se dedicam a este fenómeno, os números reais são muito superiores aos que são tornados públicos. E é fácil perceber o porquê. A violência doméstica é uma tragédia em regra, vivida solitariamente. De forma escondida. Envergonhada. E eu consigo perceber isso por parte das vitimas. Compreendo perfeitamente a dificuldade que é pedir ajuda. Admitir que se tem um problema. Que se vive em constante terror. Em pânico permanente. Compreendo isso e toda a minha solidariedade para com estas mulheres, para com todas as vitimas.

Oficialmente uma em cada três mulheres é vitima de violência doméstica. Uma em cada três. Significa isto que todos nós, qualquer um de nós, tem no seu circulo social, no mínimo, uma ou mais pessoas para quem esta realidade é uma parte das suas Vidas.

Segundo o Censos 2021, o último, a população feminina portuguesa compõe 52% do total da nossa comunidade. Cinquenta e dois por cento, em números, são cerca de 5,2 milhões de mulheres. E se aplicarmos a estatística, serão mais de 1,5 milhões de vitimas. É demasiada gente. Demasiada.

Segundo as informações o relatório da APAV referente ao ano de 2021, os crimes de violência doméstica são os que mais chegam à Associação de Apoio à Vitima. Foram quase 20 mil, 78% dos casos reportados.

Crimes onde o agressor são os cônjuges, os companheiros e ex-companheiros. 

Dado chocante é o facto de metade dos casos denunciados são casos de violência continuada. Ou seja, casos onde a violência é uma constante. Mais de dois mil casos envolvem períodos entre os dois e os cinco anos. Cerca de 500 dos casos levados até à APAV são situações que duraram mais de vinte!!! Vinte anos!!! E destes, 16 com com mais de 50 anos!!! Situações de abuso que duraram um Vida inteira

Quase 50% dos casos acontecem na residência comum. E cerca de 16% na residência da vitima. 

Olhando para estes dados não é possível não imaginar a aterradora realidade destas mulheres.

 

Mas a violência doméstica vai muito para além da agressão física. 

São quatro os tipos de violência doméstica.

A física, a psicológica ou emocional, a sexual e a económica ou financeira. 

Diferentes formas de abuso sobre mulheres e que fazem parte da nossa realidade.

 

Por muito feios que sejam estes dados, o retrato revelado por este trágico quadro, a verdade é que todos somos responsáveis por tudo isto. 

O facto de termos crescido com a ignóbil máxima do "entre marido e mulher não se mete a colher" é das coisas mais terríveis que temos. O facto de sermos incapazes de reagir a isto, de virar os olhos a esta realidade, como se fosse algo que não nos pertence, é do mais vergonhoso que posso imaginar.

 

Não consigo argumentar, entender ou encontrar motivos que possam fazer a relativização, a minimização, a mitigação desta realidade. Não me cabe na cabeça.

Tenho e sinto uma enorme vergonha por tudo isto ser também meu. Porque também eu sou português. Também esta é a minha comunidade. Também estas mulheres são minhas concidadãs. E o silêncio a que as obrigamos, que lhes impomos enquanto cultura, enquanto comunidade que partilha os mesmos valores, a mesma moral, é algo que não nos perdoo.

 

Já afirmei que compreendo o porquê de cada vitima esconder esta realidade. Compreendo honestamente. Mas não me canso de dizer, de apelar ao facto de que é possível abandonar este ciclo. 

Pedir ajuda não é fácil, mas é possível. 

 

Eu sei que até mesmo em sede de Tribunal há quem, vergonhosos e canalhas juízes que protegem os agressores nestes casos. Há pouco mais de um mês dois canalhas, juízes do Porto defenderam o argumento que a recusa de sexo retira gravidade à agressãoCanalhas!!! 

Que há dias uma figura pública, Luciana Abreu, viu um Tribunal a condenar o seu ex-companheiro a dois anos de pena suspensa depois de provadas agressões físicas e verbais. Mas o Tribunal não considerou provada a violação sexual. Canalha!!!

O meu aplauso para a Luciana Abreu que deixou um apelo a todas as vitimas de violência doméstica. Apelidou os agressores de "cobardes". É pouco, Luciana. É muito pouco. Essa gente é a escória da escória. Montes de estrume. Gente que não merece qualquer clemência.

 

Ainda assim, achei o seu apelo importante.

Até porque isto pode acontecer a qualquer pessoa.

Tenham coragem. Merecem muito mais, muito melhor.

Nenhuma de vós está condenada a viver em medo. Aterrorizada. 

Acreditem que há quem pode ajudar.

 

A terminar quero deixar publicamente, toda a minha solidariedade, toda a minha empatia por todas vós. Nem mais uma morte às mãos destes canalhas de merda!!!

E quero dizer o seguinte.

Há um estudo que não está feito e desconheço o porquê. E esse estudo, como mostram as últimas notícias que mencionei, olha para a prevalência de casos de violência doméstica onde o agressor é elemento da autoridade ou magistrado.

Acho que não existirá nada mais aterrador do que o agressor ser também a entidade a quem devem ser participados estes crimes. E digo isto quanto a elementos das forças de segurança e juízes.

Não encontrei quaisquer dados mas tenho a certeza que existem. Existem e não são poucos. 

Ainda assim, coragem. 

Deixo ficar links que podem ser utilizados sem recorrer a essas entidades.

É possível terminar o pesadelo.

E lamento muito, do fundo do coração, que alguém tenha sido sujeita a uma existência nestas circunstâncias. Lamento profundamente.

 

Ficam os contactos de  quem pode realmente ajudar

 

CIG - Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género

               Teleassistência para Vítimas de Violência Doméstica

 

UMAR - União Mulheres Alternativa Resposta

                Contactos e Linhas de Apoio

 

APAV - Associação de Apoio à Vítima

                Linha de Apoio 116 006

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.