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Da Arte da Sobrevivência

20.06.22

.... da normalização do Fascismo


sobrevivente

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Custa-me perceber que muitos são aqueles que consideram a Extrema-Direita como uma legitima força política.  

Desde há vários anos que temos assistido ao crescimento das mais negras e perigosas forças políticas de Direita. Cem anos depois de plantadas as sementes que deram origem aos repressivos, autoritários e totalitários regimes fascistas na Europa, casos como o espanhol, alemão, italiano ou português, o discurso da Direita volta a ser o mesmo. Há cem anos, no início da década de 20, começaram a difundir o discurso, a ideia de que “a Democracia é incapaz de responder satisfatoriamente às necessidades e desejos do Povo e do País”.  

Naquela altura, ainda como forças sem peso político ou institucional, a degradação das condições económicas da população, o aumento galopante do desemprego e a insatisfação generalizada com os diferentes regimes políticos, foram solo fértil para a escalada do apoio popular às mais reaccionárias forças políticas alguma vez conhecidas pelo Mundo. 

Em menos de nada, menos de uma década, a Extrema Direita passou a integrar Governos ou a ser, ela própria, o Executivo. E tudo com o apoio popular. 

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Apesar de todos o saberem não são muitos aqueles que o dizem, mas a verdade é que Hitler chega ao Poder através do voto popular. 

Apesar dos Nacional Socialistas não serem mais do que uma força política residual e insignificante no início dos anos 20 do século passado, a verdade é que foram ganhando relativa força, tendo mesmo chegado aos 3% dos votos nas eleições de 1928.

Nos anos 30, Hitler e o Partido Nazi vão ganhando paulatinamente cada vez mais apoio popular e eleitoral, prometendo recuperar a economia, gerar emprego, restabelecer a Alemanha como potência europeia e mundial, reconquistar os territórios perdidos na Grande Guerra (1914/1918), criar um Governo forte e autoritário e unir os alemães segundo parâmetros baseados nas linhas raciais e étnicas

A verdade é que Hitler apresentou o seu plano. O seu objectivo e ainda assim o Povo deu-lhe o seu apoio, transformando o seu partido numa das maiores forças políticas alemãs em 1932, altura em que alcançou 37% dos votos. Nesse ano os alemães foram duas vezes às urnas, a primeira em Junho, onde chegam aos 37%, e depois em Novembro desse ano, onde somam 32%. Sendo que Hitler acabou por ser nomeado chanceler em Janeiro de 1933.

Também Benito Mussolini, quando é nomeado chefe de Governo, merece o apoio popular. Apesar da sua ascensão à liderança do Executivo italiano ter acontecido após a Grande Marcha sobre Roma, uma forma de intimidação sobre as instituições e monarca italiano, a verdade é que os fascistas italianos, Mussolini e os seus camisas negras, foram recebidos pela população em geral como "salvador". Estávamos a 30 de Outubro de 1922. Lembra ue se manteve no cargo até à sua substituição em 1943. Foram 11 anos de um regime repressivo e assassino mas que mereceu o apoio dos italianos. Foi mesmo recebido em Roma, numa espécie de gloriosa parada digna do Império Romano.

Tudo isto para dizer que não seria a primeira vez que os fascistas, mesmo tendo como propósito acabar com a Democracia, não se inibem de a utilizar para cumprir os seus planos e conseguem também reunir o apoio popular aos seus projectos reaccionários.

Mesmo que ou apesar de omitirem aquele que é o seu objectivo, o seu propósito, o fim da Democracia. 

Hoje em dia, cem anos depois do início do processo que conduziu à tragédia que levou a Europa ao mais sangrento conflito da História da humanidade, reconheço e preocupa-me o ressurgimento do mesmo discurso que levou a Extrema Direita ao Poder.  

É verdade que alguns dos termos utilizados naquela altura, foram mudados. É que cedo perceberam que palavras e conceitos como Raça, por exemplo, são termos que assustam os eleitores e os afastam das organizações, dos partidos e das figuras que os utilizam.  

Aquilo que essas alterações, que essas subtis mudanças nos discursos revelam um natural processo de aprendizagem por parte da Direita. 

Ainda assim estes são conceitos que continuam a marcar as suas ideologias e doutrinas. Apesar de já não constar ou integrar os seus discursos, esses conceitos continuam lá, mas agora de modo “recauchutado”. Termos como Identidade, Cultura substituíram termos como Raça.  

Mas se a Direita e em particular a Extrema Direita, têm o cuidado de reformular o discurso, não nos enganemos, os objectivos, os propósitos continuam presentes. Os objectivos continuam os mesmos. Matar a Democracia e todos os Direitos que a ela são inerentes e integrantes. 

Por estes dias é absolutamente compreensível o desgaste que os regimes democratas sofrem. Há muito que a Democracia, aos olhos dos cidadãos, parece incapaz de satisfazer as suas exigências e necessidades. Mas tal ideia não surge por acaso. Há muitos anos que a desilusão se instalou no espírito dos cidadãos. O facto dos diferentes regimes terem sido concebidos e estruturados para resistir à mudança, pelo facto de se ter propagandeado a ideia da Reforma em vez da Revolução, tornou qualquer processo de transformação política e consequentemente social, demasiado morosa. Demasiado penosa. Com respostas, quando as tem para dar, a surgir tardiamente e já fora de tempo. 

O facto das condições de Vida dos cidadãos se terem deteriorado continuamente, das condições económicas acompanharem todo este processo de degradação, das dificuldades das famílias se acentuarem, tudo isto são factores que conduzem à degradação da confiança do Povo quanto ao seu Regime político. 

Sendo o Capitalismo um sistema económico que vive, que existe sem estar em contradição com regimes políticos de diferentes naturezas, sendo que o Capitalismo conduz à concentração de recursos e à optimização das condições que permitem influência, condicionar e até mesmo, exercer o Poder, não é difícil entender que aos interesses do Capitalismo servem melhor regimes autoritários e antidemocráticos que quaisquer outros. Não querendo dizer com isto que o Capitalismo não consiga sobreviver com a Democracia. Pode. E as Democracias Liberais ocidentais são prova disso mesmo. O que quero dizer é que ao Capitalismo entre um regime democrático e um regime fascista, é este último aquele que lhe dá mais e melhores condições para evoluir e solidificar. Não por acaso o financiamento dos partidos de Direita e Extrema Direita é historicamente feita por grandes industriais, grandes corporações capitalistas. 

Tratamos hoje do tema “a normalização do Fascismo” porque, infelizmente, vejo demasiada gente a colaborar com esta ideia. Poderia até entender esta “colaboração” como sendo inocente. Como sendo involuntária, mas não é. 

Por cá, em Portugal, desde a entrada da Extrema Direita no Parlamento, em 2016, que entrou no discurso nacional o termo Extrema Esquerda. E isto apesar do partido assumida e publicamente se considerar de Extrema Direita, continuar ainda hoje, a ser apresentado aos portugueses como “um partido de Direita”. Já organizações políticas como o PCP, com assento parlamentar desde o início da aventura democrática no nosso País, e o Bloco de Esquerda, no hemiciclo desde o início do milénio, serem agora e ao contrário do que acontecia até aqui, apresentados como “partidos de Extrema Esquerda”. 

Ora esta é uma alteração de discurso propositada. Deliberada. Planeada e que cumpre um objectivo. Assustar e ostracizar ambos os partidos, ambas as tendências políticas. E isto apesar de em nenhum dos programas políticos de ambos os partidos, constar em momento algum a “destruição do actual Regime político”. Algo que consta no programa político do partido de Extrema Direita. 

O facto de nenhum dos opinion makers nacionais, de nenhum dos órgãos de comunicação social portugueses chamarem à atenção para este pequeno grande detalhe, significa apenas “a normalização do Fascismo”. Contribui para a suavização de uma doutrina, de uma ideologia política perigosa, autoritária, totalitária e atentatória da Liberdade e Democracia. 

Não me surpreenderia que em menos de dez anos, tal como aconteceu entre 1920 e 1930, em Portugal a Extrema Direita chegue ao Poder. Com todas as consequências que isso representa. E quando tal acontecer, saberemos quem foram os responsáveis. 

Das pressões exercidas por Marcelo Rebelo de Sousa, defensor da falsa ideia de que “em Democracia todos e todas as tendências políticas devem estar representadas”, aos juízes do Tribunal Constitucional que violaram a própria Constituição que juraram cumprir e fazer cumprir, às forças mainstream do espectro político nacional (do Partido Socialista ao Partido Social Democrata e CDS/PP), todos permitiram a legalização de um partido fascista, racista, xenófobo, autoritário e reaccionário. Todos ajudaram. Todos colocaram em causa a nossa Democracia que tanto e tantas vidas nos custaram a conquistar. 

Em 2030 cá estaremos para fazer esse balanço. E a bem de todos nós, espero sinceramente, estar redondamente enganado. Mas não me parece. 

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