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Da Arte da Sobrevivência

17.06.22

... Assange, Watergate e o mais negro dia para a Liberdade de Imprensa


sobrevivente

 

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O Governo inglês decidiu hoje pelo pedido de extradição de Julian Assange, o fundador da Wikileaks, para os Estados Unidos. 

O anúncio coube à própria Ministra dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Priti Patel, garantindo que “a extradição não será incompatível com os direitos humanos” de Assange. E que “será tratado como adequadamente”. 

Sobre Julian Assange, actualmente detido no Estabelecimento Prisional de Belmarsh, em Londres, uma prisão de máxima segurança, recai o pedido de extradição emitido pela Justiça norte americana, onde está acusado de 18 crimes com base na “divulgação de milhares de documentos militares e diplomáricos, em 2010 e 2011, através do portal WikiLeaks#. À sua espera está, não menos, que uma pena de prisão de 175 anos, ou seja, prisão prepétua. 

Relembro que Assange esteve durante anos refugiado na Embaixada do Equador, em Londres, fugindo à Justiça norte americana, mas em Abril de 2019, o Governo equatoriano terminou com o seu estatuto de exilado político e permitiu a sua detenção por parte das autoridades inglesas. 

A própria WkiLeaks, em comunicado publicado no seu site, veio condenar a decisão, considerando “este um dia negro para a liberdade de impresa e para a democracia britânica”. Reafirmando que “Assange não fez nada de errado e que está a ser punido por fazer o seu trabalho” 

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Curiosamente, a decisão de extradição de Assange para os Estados Unidos surge no dia em que se assinalam os 50 anos sobre o início do caso Watergate. Um dos maiores escândalos políticos de sempre nos Estados Unidos. 

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A 17 de Junho de 1972, na sede do Partido Democrata em Washington, um segurança nocturno de seu nome Frank Willis, na altura com 24 anos, encontrou um pedaço de fita cola na fechadura de uma porta, impedindo que esta se fechasse, e suspeitando de se tratar de um assalto chamou imediatamente a polícia

O caso deu origem ao maior escândalo político norte americano à demissão de Richard Nixon, anos mais tarde.  

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O caso, que ficou famoso, revelou que gente ligada à Administração de Richard Nixon, estava por detrás de uma invasão à sede dos Democratas, os rivais de Nixon na corrida presidêncial, com o onjectivo de recolher informações contra os adversários do Presidente, com a instalação de escutas, roubo de documentos e um sem número de outras ilegalidades. Tudo em nome da ambição política de Richard Nixon e dos Republicanos. 

O caso foi tornado público através do Washington Times e é ainda hoje, uma das maiores referências do Jornalismo de investigação em todo o Mundo. 

Não deixa de ser extremamente simbólico o facto de hoje, especificamente hoje, 50 anos depois do início do escandalo Watergate, um bastião da liberdade de imprensa, o Reino Unido ter decidido favoravelmente quanto à extradição de Julian Assange, alguém que fez da denuncia dos abusos e mentiras norte americanaas, paricularmente da Administração de George W. Bush e da sua “Guerra ao Terror” e invasão ao Afeganistão e Iraque, o seu trabalho .  

Foi através da WikiLeaks e de Assange que o Mundo ficou a saber que nunca existiram armas de destruição maciça no Iraque, que as secretas norte americanas souberam antecipadamente dos ataques do 11 de Setembro, dos abusos na prisão de Abu Graib no Iraque, da prática de técnicas de tortura sobre prisioneiros à custódia dos Estados Unidos violando tudo o que são regras e lei da Convenção de Genebra, e muito muito mais. 

Denuncias que os americanos nunca lhe perdoaram. Mas que o Mundo agradeceu. 

Assange divulgou, noticiou aquilo que tinha que noticiar. Enquanto Jornalista, Assange não poderia nunca ter ficado calado. O Público, o Povo, o Mundo tinha qiue saber aquilo que se passava e a forma como estava a ser manipulado. 

Pessoalmente acho que toda esta perseguição feita contra o australiano é uma canalhice da pior espécie. Algo absolutamente ignóbil. 

Acho que Assange fez um enorme serviço a todos nós.  

Como todos nós, Assage terá falhas. Afinal ele é apenas humano. Mas esta perseguição que lhe é feita, a forma como lhe destruiriam a Vida é algo nojento. E aqui responsabilizo todos os Presidentes norte americanos. De George W. Bush a Joe Biden. Com Barack Obama e Donald Trumpl pelo meio. Todos eles ajudaram e muito para o actuial desfecho. 

Todos eles metem-me nojo. Um profundo nojo. 

Assage devia ser libertado e todas as acusações que sobre ele recaem deveriam ser retiradas. 

Por tudo isto ter acontecido hoje, 50 anos depois de Watergate, este poderá ser certamente o mais negro dia para a Liberdade de Imprensa de que tenho memória.  

Um dia que ficará de má memória e que ser de exemplo para a hipocrisia, para a manipulação, para a mais total e completa falta de respeito para com todos nós, cidadãos do Mundo.