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Da Arte da Sobrevivência

23.06.22

... das crianças e jovens em situação de perigo


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São cerca de 69 mil os casos actualmente acompanhados de norte a sul pelas diferentes estruturas que têm como missão a protecção de menores. 

Os números foram dados pela presidente da Comissão para a Promoção dos Direitos das Crianças, Rosário Farmhouse, no dia em que foi conhecido mais um caso de violência sobre menores. Caso de uma menina de três anos morta às mãos de uma agiota setubalense, que manteve a criança presa em casa e sob tortura com o intuito de obrigar a mãe da menor, a pagar uma dívida de €400 

Tinha três anos. Chamava-se Jéssica. Esteve a ser violentada, torturada durante cinco dias. Morreu na última segunda feira vítima de violência continuada. Espancada. Queimada. Tinha três anos. 

Segundo os dados da Comissão para a Protecção de Crianças e Jovens, só no ano passado, foram recebidas mais de 49 mil queixas de abuso sobre menores. Destes, mais de quatro mil e quinhentos são de negligência. Falamos principalmente de maus tratos sobre crianças até, repito, até aos cinco anos de idade. 

Recuso-me a acreditar que estes números não envergonham qualquer pessoa. Recuso-me mesmo a acreditar que estes números não perturbem qualquer pessoa que seja confrontado com eles. Acho impossível essa indiferença. Pelo menos, acho impossível não incomodar qualquer pessoa minimamente sã e emocionalmente equilibrada. 

Não só o caso da Jéssica é um caso absolutamente aterrador e revoltante. Uma tragédia que não pode apenas merecer a indignação da comunidade quando surge na comunicação social. A violência sobre menores, nas suas mais diversas formas, é algo que é uma realidade diária. É o quotidiano de milhares de menores. É o dia a dia de milhares de famílias. 

E custa acreditar que sejamos todos cegos a estes casos.  

Até serei capaz de compreender a hesitação de alguém quando se confronta com a dúvida de se envolver ou não numa qualquer situação que merece as suas suspeitas. Até serei capaz de compreender isso. Mas apenas o compreendo até certo ponto. Porque no final, não podem existir dúvidas. Há que ter a coragem, há que ter o carácter para comunicar esses casos às autoridades. Denuncia-los. E isso pode ser feito de modo completamente anónimo. 

É verdade que as entidades públicas carecem de meios e pessoal. Que são gritantemente poucos os funcionários, os inspectores, as assistentes sociais, tudo, absolutamente tudo o que é necessário para acompanhar e prevenir estes casos. É verdade. Mas também é verdade que há anos que se faz uma enorme campanha contra o Estado, contra o aumento da despesa do Estado, contra a dimensão do Estado, o peso do Estado. Que é preciso reduzir o Estado. Cortar as gorduras do Estado. Os que defendem tudo isso devemos perguntar se casos como o da pequena Jéssica não merece resposta? Se a pequena Jéssica não merecia mais? Se os menores, se as nossas crianças não merecem defesa? São essas as perguntas a que devem responder. E curiosamente, hoje, os defensores da redução e limitação do Estado estão calados. Bom para eles. Mau para as Jéssicas deste País. 

Dizem os números que os casos de crianças e jovens em situação de perigo aumentaram em 2021. Subiram 8,6%. Só no ano passado foram mais de 43 mil as comunicações recebidas quanto a crianças e jovens em situação de perigo, Mais 43 mil aos milhares que já existiam e estavam a ser acompanhadas. 

Quando vêm pedir menos Estado, menos peso do Estado, é bom que tenhamos todos consciência de que é aqui que querem cortar. 

E quem o faz, sabendo nós o País que temos, o País que somos, é bom não esquecer quem tem sangue nas mãos. 

23.06.22

… do caso da Jéssica e o que ele diz acerca de nós


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Ficamos hoje a saber de mais um grotesco, trágico e inadmissível caso de violência sobre menores, caso que resultou na morte de uma menina de três anos às mãos da “ama” que afinal era agiota da mãe 

O caso é mais um por entre as centenas que sucedem todos os anos e que têm como alvo menores. 

Em Setúbal, paredes meias com Lisboa, a Jéssica perdeu a vida enquanto ao cuidado da “ama”. Uma morte causada por espancamento.  

Aos três anos de idade, e segundo aquilo que foi tornado público, custa-me ter que o dizer, mas a Jéssica era uma menina marcada para morrer. E muito provavelmente, marcada para morrer desde o o momento em que entrou em casa da “ama” 

Sabemos hoje que em causa estaria uma dívida de €400 contraída pela mãe, Inês Tomás, junto de uma senhora. Pessoa essa que percebendo da dificuldade de Inês em pagar a dívida, resolveu utilizar a pequena Jéssica como “garantia” e espancou a criança até à sua morte. 

Segundo o que foi tornado público a própria “ama” terá fugido após a morte da criança, refugiando-se em Leiria tentando escapar às autoridades, mas, entretanto, já foi detida pela Polícia Judiciária 

Assim como o marido e a filha. Estão todos sob custódia policial. 

Esta é, em traços largos, a história da Jéssica. 

Importa sim, neste momento, e segundo aquilo que é a minha convicção, perceber o que este caso, o que mais este hediondo caso, diz acerca de nós. O que revela sobre todos nós enquanto pessoas, enquanto comunidade, enquanto seres humanos. 

Pessoalmente a violência é das realidades que mais abomino e me revolta. Isto porque a violência é sempre levada a cabo, é sempre exercida assente num plano de desigualdade. O mais forte sobre o mais fraco. É sempre um acto de enorme e tremenda cobardia.  

Acho inquestionável a injustiça que recai sobre a vítima. Ou as vítimas. Acho que nisto todos concordamos. Mas vou mais longe que isso. Acho absolutamente inquestionável, injustificável e sem qualquer outro motivo que não a condenação e o repúdio todos esses actos.  

Mais ainda quando levados a cabo, ou contra crianças, idosos, mulheres, pessoas com debilidades ou fragilidades físicas, psicológicas ou emocionais. Contra aqueles que se encontram em situações de momentânea ou permanente vulnerabilidade. Situações contra animais. Situações de abuso onde a força é ferramenta de intimidação, coação, abuso, etc. 

Abomino tudo isto. E confesso, não tenho qualquer tolerância para com quem as pratica. Nenhuma. 

Pior ainda quando o motivo, como neste caso, envolve dinheiro. Extorsão. Agiotagem.  

Mas este caso deve-nos fazer pensar. 

E deve fazer pensar não apenas porque morreu uma criança com três anos, mas também quem é esta gente que não tem qualquer problema em violentar uma criança para obrigar adultos a cumprir com aquilo que é a sua vontade. 

Quem gente é esta? Que gente é esta sem o mínimo respeito pela vida alheia? 

Mas quem é esta gente que actua desta maneira? Que animais são estes que vivem por entre nós? 

Como é possível pessoas, melhor, monstros destes habitarem no nosso meio? 

22.06.22

... do Serviço Nacional de Saúde


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Há dias que andamos a discutir o Serviço Nacional de Saúde. Melhor, não se discute o SNS, aquilo que se tem feito, por boa parte de muitos, é criticar o SNS, os serviços que presta, os serviços que não presta, médicos, enfermeiros, auxiliares, enfim, todos os profissionais de saúde. 
 
Aquilo que se anda a fazer, em rigor, e à boleia dos trágicos episódios que se vão conhecendo e que lamentavelmente, fazem parte do quotidiano de quem trabalha no sector, é a tentar denegrir, desvalorizar, destruir um dos pilares da nossa Democracia. 
 
Clamam muitos contra o SNS. Seja porque não há capacidade de resposta, seja porque as filas de espera são imensas, porque não há médicos e enfermeiros, porque no fundo, dizem-nos, “o SNS é uma treta e no privado é que é bom”. 
 
Aquilo que se esquecem deliberadamente de nos dizer, é que quase metade do orçamento para a o Serviço Nacional de Saúde é entregue a empresas privadas, que apenas existem e sobrevivem à conta dessas verbas. Aquilo que não nos dizem que que cada vez que são anunciados milhões e milhões para o Serviço Nacional de Saúde, apenas metade daquilo que anunciam é na verdade investido e canalizado para o SNS. Aquilo que não nos dizem é que andam há anos a tentar deteriorar o SNS de modo a que as condições, seja para utentes sejam para os profissionais, cheguem a um ponto, que é impossível argumentar contra aqueles que querem o seu fim. Isto porque, como é claro, chegaremos ao ponto em que as evidências irõ ultrapassar qualquer argumento racional 
 
Os sucessivos Governos conseguiram, imagine só, degradar a tal ponto as condições de trabalho e remuneratórias de todos os profissionais de saúde que a estes não resta outra alternativa que não abandonar o SNS e procurar trabalho no privado. O mesmo privado que posteriormente, tem o SNS que pagar para receber utentes. 
 
Ora se não encontra aqui uma total inversão de toda a lógica, não lhe consigo pintar outro quadro mais flagrante. 
 
Tem sido política e objectivo dos sucessivos Governos reduzir ao mínimo o investimento em equipamentos, em estruturas ligadas à Saúde. Tem sido política e objectivo dos sucessivos Governos reduzir ao mínimo, ou menos não realizar qualquer actualização salarial a todos os profissionais de Saúde. 
 
Como se traduzem estas políticas? Traduzem-se na fuga de profissionais para o privado. Traduzem-se na redução da qualidade dos serviços prestados seja por falta de profissionais, seja porque os equipamentos estão ultrapassados, desactualizados. 
 
O que fazer então? Solução milagrosa liberal. Contratar os serviços que deviam ser competência e responsabilidade do SNS a privados. E pagar principescamente, os mesmos serviços. Serviços realizados por unidades de saúde que, pasme-se, pertencem a grupo económicos com ligações políticas.  
 
 
E no meio disto tudo, quem entrega a saúde pública aos privados, braços ao alto porque não há médicos, porque não há enfermeiros ou porque, infelizmente, estas carências acabam por se traduzir em vitimas mortais. 
 
É perfeitamente compreensível diferentes posições acerca do papel do Estado num sector como o sa Saúde. Aquilo que não é compreensível é manipular a discussão, falsear a realidade e tentar, como sempre, transformar um Estado que deve servir a todos num Estado que serva apenas alguns. 
21.06.22

... lamento mas Portugal é racista


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“Portugal não é racista” é a frase que se pode ler nesta faixa exibida por André Ventura, o líder da Extrema Direita portuguesa, durante uma manifestação em Junho de 2017, em Lisboa. 

“Portugal não é racista”, mas curiosamente todos os elementos que constam nesta foto e que encabeçavam esta manifestação são caucasianos. Não há nenhuma minoria representada nesta foto. 

Volto ao tema da Extrema Direita em Portugal porque este é um assunto que me preocupa. Preocupa-me realmente.  

Choca-me a foram como a História, como as lições que a História nos deu e dá, estão a ser deliberadamente ignoradas por variadíssimas autoridades, organizações, entidades e personalidades públicas. 

Não sei se tal acontece por considerarem que a Extrema Direita não representa qualquer perigo, mas se essa é a sua convicção então, estamos seriamente em problemas. 

Durante algum tempo, e tive inúmeros debates acerca disto, a estratégia geral, a estratégia de muitos responsáveis políticos, foi a de não se dar visibilidade a Ventura e ao seu partido. A ordem era ignora-los. Achava esta gente que não falando do problema ele não existiria. Que acabaria por se extinguir. 

Falei, alertei uma e outra vez sempre contestando essa posição. Estava certo de que não falar ou ignorar Ventura e a Extrema Direita não ira resolver nada. Aliás, tal atitude seria mesmo a ideal para eles e a pior de todas para nós. 

Na altura e estávamos em 2016, Ventura conseguiu entrar para o Parlamento. Elegeu um deputado. E impressionantemente, nem nesse momento soaram os alarmes. 

Quatro anos depois, são a terceira força política no Parlamento. E pior ainda, preparam-se para ultrapassar a tradicional Direita portuguesa representada no hemiciclo pelo PSD, um dos partidos fundadores da nossa Democracia. 

Ventura e o seu partido encarnam tudo o que é de mais negro que têm os portugueses e Portugal.

Hoje, sabem como capitalizar essas características, como as rentabilizar e as converter em votos. 

Não se trata apenas de ser uma organização fascista, trata-se sobretudo de apresentarem um discurso populista de Direita que vai de encontro ao sentimento da esmagadora maioria dos portugueses. 

A Extrema Direita apresenta-se não apenas como uma organização, a única organização capaz de salvar o País, e nem se inibem de afirmar que pretendem mesmo acabar com o actual regime democrático, como também fazem do racismo o seu slogan de campanha 

Nas últimas eleições nacionais, avançaram com o conceito “dos portugueses de bem”. Um termo abstrato que nada significa, mas que serve de toldo que abrange e onde cabe toda a gente. Mas a questão é quem define quem são estes tais “portugueses de bem” e quem decide sobre essa propriedade. Claro está que a resposta é óbvia, decide e define a Extrema Direita e segundo os seus apetites, vontades e interesses momentâneos. 

Tristemente Portugal é um País racista. E é normal que ainda assim o seja.  

Não apenas e só por causa da sua História, lembrar que ainda há menos de cinquenta anos Portugal era uma potência colonial, estatuto que manteve e assumiu durante mais de quatro séculos, como também é um País, pelas suas características geográficas e políticas, que o “empurram” por assim dizer, para esse sentimento. 

Sendo que faz fronteira apenas com Espanha, uma construção legal assente sobre os despojos das várias nações ibéricas invadidas por Castela Leão, uma realidade com aspirações imperialistas e responsável pela tentativa de genocídio e eliminação de todas as diferentes regiões e culturas peninsulares 

Uma proximidade, uma relação desproporcional que ao longo da História fomentou uma crescente diferenciação entre aqueles que são o nós e o outro. Neste caso o vizinho fronteiriço. 

Com os Descobrimentos, a aventura marítima portuguesa, e a conquista de diversos territórios pelos diferentes continentes do Mundo, muito por conta do espírito da época e da ideia eurocêntrica do Mundo, também os portugueses não encontraram dificuldade em assimilar o preconceito darwinista da evolução natural das espécies e a entender todos os Povos com que se cruzou e encontrou durante essa epopeia, como Povos primitivos. Povos menos desenvolvidos, menos inteligentes que o europeu. Que é como quem diz o homem branco. 

Não por acaso os portugueses se transformaram nos maiores comerciantes de escravos do Mundo, num curto espaço de tempo. 

Ora todas estas condições, todas estas circunstâncias levaram os portugueses e Portugal enquanto entidade, a fazer seus um conjunto de comportamentos, de vícios racistas e xenófobos. Traços que ainda hoje se mantêm até aos dias de hoje. E não é difícil de compreender o porquê dessa permanência. Até há menos de cinquenta anos, Portugal era uma potência colonial. E não é de um dia para o outro, muito menos apenas da transformação ou alteração de regime político, que estes traços desaparecem e passam a pertencer ao passado. 

Não é incomum, nos dias de hoje, assistir a comportamentos de natureza racista. Sejam eles manifestados através de expressões populares, sejam eles manifestados através de comportamentos individuais e colectivos, sejam mesmo eles reflectidos através das acções ou comportamentos do Estado. 

Os exemplos mais gritantes que posso utilizar e trazer a esta discusão, assim de cabeça e sem procurar ou me documentar, são aqueles que vamos tomando consciência através da Comunicação Social e que se reportam a incidentes ocorridos entre elementos das autoridades e comunidades dos chamados bairros sociais. 

Situações como violência policial sobre cidadãos de descendência africana, por exemplo, em concelhos como os da Amadora ou Almada, são frequentes. Bairros como os da Cova da Moura, na Damaia, Amadora, ou os chamados Bairros das Cores, o Bairro Cor de Rosa, Bairro Branco e Bairro Amarelo, no Monte da Caparica, em Almada, e paredes meias com o Hospital Garcia de Orta, são não só ou apenas frequentes, mas uma constante nas vidas destas comunidades. 

Os números quanto a detenções por delitos menores, revelam uma enorme diferença entre cidadãos portugueses de descendência africana e cidadãos portugueses de descendência europeia. 

Mas esses indicadores de racismo sistémico e institucional não se extinguem apenas quanto à actuação das forças de segurança. Também os podemos encontrar quanto à empregabilidade, nomeadamente na Função Pública, quanto aos cargos e posições profissionais que ocupam, quanto ao acesso a créditos bancários, acesso e presença no ensino superior, enfim, numa série de dimensões da nossa vida enquanto comunidade.  

São os números que fazem o nosso retrato social enquanto comunidade que acabam por revelar esta dura realidade. 

Se questionarmos um qualquer português ou portuguesa se é racista, a esmagadora maioria irá negar ter essa ideia ou convicção. Ninguém se vê ou entende como racista. Excepção feita a alguns energúmenos, mas esses também existem. 

O cidadão comum não se vê ou entende como racista, mas a verdade é que este é um sentimento profundamente enraizado em cada um de nós. A verdade é que todos acabamos por manifestar o “nosso racismo” de forma inconsciente. Sem mesmo nos apercebermos disso. 

Por exemplo, expressões populares como “trabalhar que nem um mouro”, ou “trabalhar que nem um preto”, a própria expressão “um preto” ou “preto”, revelam o racismo sistémico e cultural de que falo. 

São expressões aparentemente inofensivas, mas não são. São expressões ofensiva, injustas, retrógradas e reaccionárias que fazem parte das nossas Vidas. São expressões que reflectem profundos e enraizados sentimentos. Reflectem uma matriz cultural e educacional que nem nos apercebemos delas ser portadores. 

E é apelando a estes sentimentos, tendo consciência de que eles existem e são partilhados por todos, que Ventura e os fascistas encontram forma de fazer chegar o seu discurso de ódio aos portugueses. Não de o fazer chegar como principalmente fazer esse discurso ser identificado por cada um de nós. 

Já todos ouvimos a Extrema Direita afirmar “os portugueses primeiro”.?  E não será difícil a qualquer uim de nós, particularmente aqueles que vivem, que sobrevivem com extremas dificuldades económicas e/ou financeiras, concordar cegamente com tal afirmação.  

O problema é que esta afirmação é perigosa. Extremamente perigosa. 

Mas afinal quem são os “portugueses” de que fala Ventura? Fala ele de todos os portugueses? Ou só de alguns dos portugueses? Fala ele de portugueses no sentido de quem tem a nacionalidade portuguesa? Ou fala ele dos portugueses enquanto elementos possuidores de uma série de traços étnicos? Acho que ele fala destes segundos. Fala de “brancos”. Aliás, por entre as suas vergonhosas interacções com várias comunidades etnicamente minoritárias, há uma que se destaca. Aconteceu em 2019, no Seixal, durante uma visita ao Bairro da Jamaica, um “bairro” que mais não são do que três prédios cuja construção foi suspensa nos anos 70 por ordem da autarquia, por questões de legalidade. Os prédios, ao longo do tempo, acabaram por ser ocupados por imigrantes africanos e suas famílias, assim como por membros da comunidade romani. Enfim, foram sendo ocupados por aqueles que, infelizmente, se viram em situações de extrema pobreza e sem habitação. 

É desta interacção da qual acabou por ser condenado ao pagamento de uma indemnização depois de ter classificado uma família cigana como “traficantes de droga e ladrões”. Acusações que, considerou o tribunal, eram falsas. 

Ainda que posteriormente condenado em tribunal, na altura tais palavras encontraram um expectável apoio da opinião pública. Reflectindo assim um sentimento generalizado quanto às minorias. 

São as minorias, os tais portugueses que estão fora dos “portugueses primeiro” de que fala. São afrodescendentes e todos os outros. Numa ideia, os não “brancos” 

E é o uso deste vocabulário que encontra adesão junto dos eleitores. É esta identificação que cada um sente quando confrontado com este tipo de linguagem, e eis que surge o racista que habita em cada um de nós. 

É uma questão cultural, educacional e que deve ser combatida. Mas que Ventura e a Extrema Direita alimentam e vivem dela. 

O racismo é um cancro. É uma doença social que apenas divide e não agrega. É um atentado aos Direitos Humanos. Um atentado aos Direitos de cada um de nós. Até porque, como dizia o escritor, “primeiro vieram buscar os judeus, e eu não disse nada. Depois vieram buscar os comunistas, e eu não disse nada. Por fim vieram buscar-me a mim, e não havia ninguém para dizer algo”. E será assim que tudo acontecerá. 

“Portugal não é racista”. Lamento, mas sim é. Portugal e os portugueses são racistas. E por incrível que possa parecer, eu não os culpo. Não os culpo porque foi assim que foram educados, aculturados. Foi assim que lhes deram o Mundo a entender. Culpo sim, os portugueses, que não querem crescer e se educar quanto a isso. Essa recusa é para mim, inaceitável. Mas compreendo o seu sentimento de partida. Já mão compreendo a razão de se recusarem a ser esclarecidos quanto a isso. 

E será esta recusa, será este desconfortável conforto que nos irá conduzir a um aumento do apoio popular à Extrema Direita. 

Ventura sabe falar aos portugueses. Aquilo que diz faz-lhes sentido. É-lhes familiar. Como se recebessem das suas palavras a validação para sentimentos e ideias as quais são apenas “senso comum e lógicas” aos seus olhos.  

Mesmo que percebendo a barbaridade que estão a ouvir, mesmo percebendo a imoralidade da mensagem que recebem há ali uma identificação, uma validação para sentimentos que reconhecem como existir em si mesmos.  

E será também por aqui que a nossa Democracia estará em perigo. 

Por isso, hoje e ainda a esta distância do dia do não retorno, é necessário que todas as forças democratas, que todos os democratas se unam contra esta canalha criminosa. 

20.06.22

.... da normalização do Fascismo


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Custa-me perceber que muitos são aqueles que consideram a Extrema-Direita como uma legitima força política.  

Desde há vários anos que temos assistido ao crescimento das mais negras e perigosas forças políticas de Direita. Cem anos depois de plantadas as sementes que deram origem aos repressivos, autoritários e totalitários regimes fascistas na Europa, casos como o espanhol, alemão, italiano ou português, o discurso da Direita volta a ser o mesmo. Há cem anos, no início da década de 20, começaram a difundir o discurso, a ideia de que “a Democracia é incapaz de responder satisfatoriamente às necessidades e desejos do Povo e do País”.  

Naquela altura, ainda como forças sem peso político ou institucional, a degradação das condições económicas da população, o aumento galopante do desemprego e a insatisfação generalizada com os diferentes regimes políticos, foram solo fértil para a escalada do apoio popular às mais reaccionárias forças políticas alguma vez conhecidas pelo Mundo. 

Em menos de nada, menos de uma década, a Extrema Direita passou a integrar Governos ou a ser, ela própria, o Executivo. E tudo com o apoio popular. 

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Apesar de todos o saberem não são muitos aqueles que o dizem, mas a verdade é que Hitler chega ao Poder através do voto popular. 

Apesar dos Nacional Socialistas não serem mais do que uma força política residual e insignificante no início dos anos 20 do século passado, a verdade é que foram ganhando relativa força, tendo mesmo chegado aos 3% dos votos nas eleições de 1928.

Nos anos 30, Hitler e o Partido Nazi vão ganhando paulatinamente cada vez mais apoio popular e eleitoral, prometendo recuperar a economia, gerar emprego, restabelecer a Alemanha como potência europeia e mundial, reconquistar os territórios perdidos na Grande Guerra (1914/1918), criar um Governo forte e autoritário e unir os alemães segundo parâmetros baseados nas linhas raciais e étnicas

A verdade é que Hitler apresentou o seu plano. O seu objectivo e ainda assim o Povo deu-lhe o seu apoio, transformando o seu partido numa das maiores forças políticas alemãs em 1932, altura em que alcançou 37% dos votos. Nesse ano os alemães foram duas vezes às urnas, a primeira em Junho, onde chegam aos 37%, e depois em Novembro desse ano, onde somam 32%. Sendo que Hitler acabou por ser nomeado chanceler em Janeiro de 1933.

Também Benito Mussolini, quando é nomeado chefe de Governo, merece o apoio popular. Apesar da sua ascensão à liderança do Executivo italiano ter acontecido após a Grande Marcha sobre Roma, uma forma de intimidação sobre as instituições e monarca italiano, a verdade é que os fascistas italianos, Mussolini e os seus camisas negras, foram recebidos pela população em geral como "salvador". Estávamos a 30 de Outubro de 1922. Lembra ue se manteve no cargo até à sua substituição em 1943. Foram 11 anos de um regime repressivo e assassino mas que mereceu o apoio dos italianos. Foi mesmo recebido em Roma, numa espécie de gloriosa parada digna do Império Romano.

Tudo isto para dizer que não seria a primeira vez que os fascistas, mesmo tendo como propósito acabar com a Democracia, não se inibem de a utilizar para cumprir os seus planos e conseguem também reunir o apoio popular aos seus projectos reaccionários.

Mesmo que ou apesar de omitirem aquele que é o seu objectivo, o seu propósito, o fim da Democracia. 

Hoje em dia, cem anos depois do início do processo que conduziu à tragédia que levou a Europa ao mais sangrento conflito da História da humanidade, reconheço e preocupa-me o ressurgimento do mesmo discurso que levou a Extrema Direita ao Poder.  

É verdade que alguns dos termos utilizados naquela altura, foram mudados. É que cedo perceberam que palavras e conceitos como Raça, por exemplo, são termos que assustam os eleitores e os afastam das organizações, dos partidos e das figuras que os utilizam.  

Aquilo que essas alterações, que essas subtis mudanças nos discursos revelam um natural processo de aprendizagem por parte da Direita. 

Ainda assim estes são conceitos que continuam a marcar as suas ideologias e doutrinas. Apesar de já não constar ou integrar os seus discursos, esses conceitos continuam lá, mas agora de modo “recauchutado”. Termos como Identidade, Cultura substituíram termos como Raça.  

Mas se a Direita e em particular a Extrema Direita, têm o cuidado de reformular o discurso, não nos enganemos, os objectivos, os propósitos continuam presentes. Os objectivos continuam os mesmos. Matar a Democracia e todos os Direitos que a ela são inerentes e integrantes. 

Por estes dias é absolutamente compreensível o desgaste que os regimes democratas sofrem. Há muito que a Democracia, aos olhos dos cidadãos, parece incapaz de satisfazer as suas exigências e necessidades. Mas tal ideia não surge por acaso. Há muitos anos que a desilusão se instalou no espírito dos cidadãos. O facto dos diferentes regimes terem sido concebidos e estruturados para resistir à mudança, pelo facto de se ter propagandeado a ideia da Reforma em vez da Revolução, tornou qualquer processo de transformação política e consequentemente social, demasiado morosa. Demasiado penosa. Com respostas, quando as tem para dar, a surgir tardiamente e já fora de tempo. 

O facto das condições de Vida dos cidadãos se terem deteriorado continuamente, das condições económicas acompanharem todo este processo de degradação, das dificuldades das famílias se acentuarem, tudo isto são factores que conduzem à degradação da confiança do Povo quanto ao seu Regime político. 

Sendo o Capitalismo um sistema económico que vive, que existe sem estar em contradição com regimes políticos de diferentes naturezas, sendo que o Capitalismo conduz à concentração de recursos e à optimização das condições que permitem influência, condicionar e até mesmo, exercer o Poder, não é difícil entender que aos interesses do Capitalismo servem melhor regimes autoritários e antidemocráticos que quaisquer outros. Não querendo dizer com isto que o Capitalismo não consiga sobreviver com a Democracia. Pode. E as Democracias Liberais ocidentais são prova disso mesmo. O que quero dizer é que ao Capitalismo entre um regime democrático e um regime fascista, é este último aquele que lhe dá mais e melhores condições para evoluir e solidificar. Não por acaso o financiamento dos partidos de Direita e Extrema Direita é historicamente feita por grandes industriais, grandes corporações capitalistas. 

Tratamos hoje do tema “a normalização do Fascismo” porque, infelizmente, vejo demasiada gente a colaborar com esta ideia. Poderia até entender esta “colaboração” como sendo inocente. Como sendo involuntária, mas não é. 

Por cá, em Portugal, desde a entrada da Extrema Direita no Parlamento, em 2016, que entrou no discurso nacional o termo Extrema Esquerda. E isto apesar do partido assumida e publicamente se considerar de Extrema Direita, continuar ainda hoje, a ser apresentado aos portugueses como “um partido de Direita”. Já organizações políticas como o PCP, com assento parlamentar desde o início da aventura democrática no nosso País, e o Bloco de Esquerda, no hemiciclo desde o início do milénio, serem agora e ao contrário do que acontecia até aqui, apresentados como “partidos de Extrema Esquerda”. 

Ora esta é uma alteração de discurso propositada. Deliberada. Planeada e que cumpre um objectivo. Assustar e ostracizar ambos os partidos, ambas as tendências políticas. E isto apesar de em nenhum dos programas políticos de ambos os partidos, constar em momento algum a “destruição do actual Regime político”. Algo que consta no programa político do partido de Extrema Direita. 

O facto de nenhum dos opinion makers nacionais, de nenhum dos órgãos de comunicação social portugueses chamarem à atenção para este pequeno grande detalhe, significa apenas “a normalização do Fascismo”. Contribui para a suavização de uma doutrina, de uma ideologia política perigosa, autoritária, totalitária e atentatória da Liberdade e Democracia. 

Não me surpreenderia que em menos de dez anos, tal como aconteceu entre 1920 e 1930, em Portugal a Extrema Direita chegue ao Poder. Com todas as consequências que isso representa. E quando tal acontecer, saberemos quem foram os responsáveis. 

Das pressões exercidas por Marcelo Rebelo de Sousa, defensor da falsa ideia de que “em Democracia todos e todas as tendências políticas devem estar representadas”, aos juízes do Tribunal Constitucional que violaram a própria Constituição que juraram cumprir e fazer cumprir, às forças mainstream do espectro político nacional (do Partido Socialista ao Partido Social Democrata e CDS/PP), todos permitiram a legalização de um partido fascista, racista, xenófobo, autoritário e reaccionário. Todos ajudaram. Todos colocaram em causa a nossa Democracia que tanto e tantas vidas nos custaram a conquistar. 

Em 2030 cá estaremos para fazer esse balanço. E a bem de todos nós, espero sinceramente, estar redondamente enganado. Mas não me parece. 

17.06.22

... do que esqueço e não perdoo dos incêndios de Pedrógão Grande em 2017


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No dia em que se assinalaram os cinco anos sobre os incêndios de Pedrogão Grande, houve várias cerimónias para apontar uma data que nunca mais deverá ser esquecida por nenhum dos portugueses.

Não foram apenas as 66 vitimas mortais, os 253 feridos e as dezenas e dezenas de famílias afectas, destruídas pelo fogo.

Foi também o triste espectáculo que muitos foram dar em frente às cameras de televisão e objectivas de fotógrafos.
Sem ter em conta o sofrimento de quem tudo perdeu à ira dos fogo, sem ter em conta a tragédia que se abateu sobre centenas de pessoas, muitos quiseram "mostrar serviço" e lá foram a correr até àquele palco dantesco

Entre promessas, falsas promessas, entre o atropelo de competências por parte de várias autoridades, entre os abraços e beijinhos para primeiras páginas de jornais, revistas e abertura de telejornais, houve uma situação que nunca mais esqueci e que nunca mais me saiu da memória sempre que os incêndios de Pedrogão Grande são tema ou assinto

O que não me saí da memória é o nome Manuel Francisco Nascimento.
Manuel Francisco Nascimento
Cidadão português, 81 anos de idade a quem o fogo roubou tudo. Tudo

Em desespero, sentado ao volante da sua velha carrinha de caixa aberta, Manuel Francisco Nascimento não aguentou e quebrou. Quebrou emocionalmente na presença do Presidente da República

Junto ao carro ouvíamos, "Grava!!! Grava!!!"

E lá os câmeras pressionaram Rec e os fotografos dispararam chapa atrás de chapa.

- "Perdi tudo!!! Tudo!!!", revelava o sr. Manuel Francisco Nascimento enquanto Marcelo Rebelo de Sousa, já sentado no lugar do passageiro, estendia os braços para mais um abracinho de conforto.

Com Manuel Francisco Nascimento a soluçar compulsivamente, tomado pelo peso da tragédia, pela inevitabilidade de se ter 81 anos e não ter condições nem tempo para recomeçar qualquer reconstrução de Vida, responde o Presidente da República. O homem que nos deve representar a todos. A absolutamente todos.

- "Não se preocupe. Vai ficar tudo bem. Daqui a dois ou três meses estará de regresso a uma casa nova. Prometo."

Promessas gravadas pelas televisões, registadas pelas objectivas dos fotógrafos e pelos olhos de todos os portugueses que assistiram através da televisão.

Naquele dia Marcelo foi ainda mais longe.

O Presidente estava tão generoso que prometeu mundos e fundos. Verbas a torto e a direito. Fundos e mais fundos. Distribuiu dinheiro a rodos. Dava tudo e depressa. Mas havia um único problema, é que nada do que prometeu era da sua competência.

O que Marcelo fez foi dar aquilo que não era seu para dar.
Mas ele, prometeu. E prometeu a pés juntos

Pessoalmente nunca mais esqueci o Senhor Manuel Francisco Nascimento.
Aquela imagem, de um concidadão meu com 81 anos a quem o fogo castigou violentamente, a quem foi prometido tudo e mais um par de botas, acabou comigo naquele momento. Até porque percebi imediatamente que Marcelo não teria nunca, condições para cumprir o que andava a prometer a quem estava desesperado. Que Marcelo mentia. E mentia a quem não poderia nunca, a nunca por nunca mentir.

Mais de um ano depois, a 09 ou 10 de Dezembro de 2018, soube da morte do Senhor Manuel Francisco Nascimento. Tinha 82 anos

À cabeça surgiu-me logo a pergunta, "como é que ficou a cena da casa do homem?". Aliás, fiz mesmo esta pergunta a um colega meu. E ele não me soube responder. Fui à procura.

Um ano depois dos incêndios, o Senhor Manuel Francisco Nascimento falecia aos 82 anos.
Causa de morte, desgosto. Coração partido.
Contaram-me, naquela altura, que "nunca mais foi o mesmo depois dos incêncidos",
Percebi que o peso da tragédia, o peso de uma alma castigada pela Vida, pela sorte e pelas falsas promessas que lhe haviam feito, acabaram por o destruir.
O Senhor Manuel Francisco Nascimento nunca mais recuperou e viveu o seu último ano de Vida na mais profunda mágoa. Na mais violenta realização de que nada detinha depois de uma Vida de trabalho e sacrifício. Que a única pequena coisa a que podia chamar de sua, havia se esfumado no ar. E que a pequena esperança que lhe foi entregue mais não foi que "palavras de circunstância". Promessas para nunca ser cumpridas.

Um ano depois dos incêndios, sem casa e vivendo de favor por debaixo de um tecto ao qual não podia chamar de seu, o Senhor Manuel Francisco Nascimento faleceu. Morreu destruído. Quebrado. Humilhado.

O Senhor Manuel Francisco Nascimento deixou-nos por desgosto. De coração partido. E eu nunca mais o esqueci.

O que fizeram ao Senhor Manuel Francisco Nascimento, o que fazem constantemente a todos nós cidadãos portugueses, é canalha.

Queremos respeito, condições de Vida. Aliás, exigimos respeito!!! Exigimos condições de Vida!!!

Não necessitamos de abracinhos nem beijos na testa!!!

Exigimos VIVER !!! Viver com dignidade. Com a dignidade que merecemos,

#NãoEsqueçoNãoPerdoo
#PresidenteDosAfectos

17.06.22

... Assange, Watergate e o mais negro dia para a Liberdade de Imprensa


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O Governo inglês decidiu hoje pelo pedido de extradição de Julian Assange, o fundador da Wikileaks, para os Estados Unidos. 

O anúncio coube à própria Ministra dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Priti Patel, garantindo que “a extradição não será incompatível com os direitos humanos” de Assange. E que “será tratado como adequadamente”. 

Sobre Julian Assange, actualmente detido no Estabelecimento Prisional de Belmarsh, em Londres, uma prisão de máxima segurança, recai o pedido de extradição emitido pela Justiça norte americana, onde está acusado de 18 crimes com base na “divulgação de milhares de documentos militares e diplomáricos, em 2010 e 2011, através do portal WikiLeaks#. À sua espera está, não menos, que uma pena de prisão de 175 anos, ou seja, prisão prepétua. 

Relembro que Assange esteve durante anos refugiado na Embaixada do Equador, em Londres, fugindo à Justiça norte americana, mas em Abril de 2019, o Governo equatoriano terminou com o seu estatuto de exilado político e permitiu a sua detenção por parte das autoridades inglesas. 

A própria WkiLeaks, em comunicado publicado no seu site, veio condenar a decisão, considerando “este um dia negro para a liberdade de impresa e para a democracia britânica”. Reafirmando que “Assange não fez nada de errado e que está a ser punido por fazer o seu trabalho” 

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Curiosamente, a decisão de extradição de Assange para os Estados Unidos surge no dia em que se assinalam os 50 anos sobre o início do caso Watergate. Um dos maiores escândalos políticos de sempre nos Estados Unidos. 

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A 17 de Junho de 1972, na sede do Partido Democrata em Washington, um segurança nocturno de seu nome Frank Willis, na altura com 24 anos, encontrou um pedaço de fita cola na fechadura de uma porta, impedindo que esta se fechasse, e suspeitando de se tratar de um assalto chamou imediatamente a polícia

O caso deu origem ao maior escândalo político norte americano à demissão de Richard Nixon, anos mais tarde.  

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O caso, que ficou famoso, revelou que gente ligada à Administração de Richard Nixon, estava por detrás de uma invasão à sede dos Democratas, os rivais de Nixon na corrida presidêncial, com o onjectivo de recolher informações contra os adversários do Presidente, com a instalação de escutas, roubo de documentos e um sem número de outras ilegalidades. Tudo em nome da ambição política de Richard Nixon e dos Republicanos. 

O caso foi tornado público através do Washington Times e é ainda hoje, uma das maiores referências do Jornalismo de investigação em todo o Mundo. 

Não deixa de ser extremamente simbólico o facto de hoje, especificamente hoje, 50 anos depois do início do escandalo Watergate, um bastião da liberdade de imprensa, o Reino Unido ter decidido favoravelmente quanto à extradição de Julian Assange, alguém que fez da denuncia dos abusos e mentiras norte americanaas, paricularmente da Administração de George W. Bush e da sua “Guerra ao Terror” e invasão ao Afeganistão e Iraque, o seu trabalho .  

Foi através da WikiLeaks e de Assange que o Mundo ficou a saber que nunca existiram armas de destruição maciça no Iraque, que as secretas norte americanas souberam antecipadamente dos ataques do 11 de Setembro, dos abusos na prisão de Abu Graib no Iraque, da prática de técnicas de tortura sobre prisioneiros à custódia dos Estados Unidos violando tudo o que são regras e lei da Convenção de Genebra, e muito muito mais. 

Denuncias que os americanos nunca lhe perdoaram. Mas que o Mundo agradeceu. 

Assange divulgou, noticiou aquilo que tinha que noticiar. Enquanto Jornalista, Assange não poderia nunca ter ficado calado. O Público, o Povo, o Mundo tinha qiue saber aquilo que se passava e a forma como estava a ser manipulado. 

Pessoalmente acho que toda esta perseguição feita contra o australiano é uma canalhice da pior espécie. Algo absolutamente ignóbil. 

Acho que Assange fez um enorme serviço a todos nós.  

Como todos nós, Assage terá falhas. Afinal ele é apenas humano. Mas esta perseguição que lhe é feita, a forma como lhe destruiriam a Vida é algo nojento. E aqui responsabilizo todos os Presidentes norte americanos. De George W. Bush a Joe Biden. Com Barack Obama e Donald Trumpl pelo meio. Todos eles ajudaram e muito para o actuial desfecho. 

Todos eles metem-me nojo. Um profundo nojo. 

Assage devia ser libertado e todas as acusações que sobre ele recaem deveriam ser retiradas. 

Por tudo isto ter acontecido hoje, 50 anos depois de Watergate, este poderá ser certamente o mais negro dia para a Liberdade de Imprensa de que tenho memória.  

Um dia que ficará de má memória e que ser de exemplo para a hipocrisia, para a manipulação, para a mais total e completa falta de respeito para com todos nós, cidadãos do Mundo. 

15.06.22

... acerca de mim.


sobrevivente

 

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Iniciei esta viagem há umas semanas e quero desde já te agradecer por aqui passares e dedicares algum to teu precioso tempo àquilo que por aqui vou escrevendo. Por isso, o meu muito obrigado. 

Talvez tenha chegado na altura de falar um pouco acerca de mim. Mais do que aquilo que está no primeiro post. Falar um pouco de quem sou e porque me eis aqui chegado. 

 

Para mim escrever sempre foi algo o qual gostei fazer. Como aparentemente, não tenho nenhum ou grandes problemas de socialização, em conversar com pessoas, pelo menos é isso que toda a gente está convencida, mas a verdade é que quanto àquilo que sinto, quanto à forma como entendo a vida, como vejo a vida, as minhas emoções, há muito que o faço através da escrita. Só através da escrita. É assim que o tenho feito desde há muitos anos. E isso faço-o sempre de forma privada. Devem estas, ser as primeiras vezes em que escrevo para outros. Para outros lerem, quero eu dizer. 

Não que considere ter alguma coisa para dizer. Algo de importante ou significativo, muito ou pouco para dizer ao Mundo. Considero sim que tenho uma vontade enorme de deixar algum registo. De deixar uma qualquer partilha. Partilhar algo, nem que seja apenas e só comigo, mas quero deixá-la. Talvez seja esta minha necessidade de me convencer que não sou transparente. De que por aqui passei e por aqui deixei algo. 

E isto, talvez, porque cheguei a um ponto na minha vida, à chamada meia-idade, e olhando para trás a verdade é esta, não tenho nada para deixar. Nada. Infelizmente a minha passagem por esta existência não contribui ou contribuiu em nada, não trouxe, não vai trazer nada de novo. Não ajuda nada. Não ajudou ninguém. E isso magoa. Pesa. Pesa bastante. E não gosto de ter essa consciência. De saber disso. De ter noção disso. 

 

Nunca foi minha intenção, não é minha intenção ganhar dinheiro com isto. De transformar isto, seja lá o que isto for, num qualquer manuscrito, num qualquer muro de lamentações. Até porque são nesta altura, muito poucos os objetivos que tenho.  

Entre esses poucos e raros, um deles é acabar de pagar a casa de quem comprei. A casa onde planeei construir uma vida que acabou por não acontecer. Mas acabei por ficar com ela. Uma casa da qual não me desfiz, por nenhuma outra razão que não este receio, este medo, este peso que sinto quanto à inutilidade que foi, que é a minha existência. 

Faltam-me nesta altura, cerca de €50.000 para acabar de a pagar. Oito anos. Mais oito anos de renda e aquilo que já percebi aquilo que aí vem não me vai muito provavelmente, permitir cumprir mais este objectivo.  

Mais um a juntar à minha longa lista de fracassos. 

Estamos em Junho de 2022, 17 de Junho e já sei que a renda vai aumentar exponencialmente nos próximos meses. Que não vou conseguir encontrar trabalho. Que vai ser muito difícil encontrar trabalho e, consequentemente, falhar mais este sonho. Mais este objetivo. O mais certo é ter que me desfazer da casa. Ter que lidar com mais um fracasso. Com mais um da minha já longa lista. E isso magoa. Pesa-ma ter que o admitir. Reconhecer. E mais ainda ter que o partilhar. Pesa muito. Demasiado. 

 

Porquê o blog? A resposta, por que não? Há tanta gente a escrever coisas que não valem a pena. Tanta coisa sem qualquer valor ou significado. Por que não também eu? Mais não seja para ocupar tempo. Até porque os currículos vão e não voltam. Nem resposta me dão. 

Preciso de encontrar trabalho. Rapidamente. Preciso encontrar um rendimento e nem sei o que fazer. Não sei quem me poderá dar trabalho. Nem sei o que poderei fazer. Tenho concorrido a tudo e estou nisto há 3 meses. Todos os dias. Todos os dias envio dezenas e dezenas de currículos e nem uma resposta, Nem um vai para o caralho! 

Acho que não vou conseguir encontrar trabalho. Nem sei se não tenho outra alternativa senão esperar pela morte. Aguardar até ao dia em que se lembrar de mim e me venha buscar. 

Não queria fazer ter que os meus passassem por isso. Por toda essa dor. A dor de perder alguém. Acho que já os castiguei demasiado. Já puni demasiado os seus espíritos. Obriga-los a mais esse castigo é egoísta da minha parte.  

Nunca tive uma relação fácil com os meus. Acho que nunca ouvi o meu pai dizer que tenho orgulho em mim. De me dar um elogio. Ainda que saiba que me gabava a outros enquanto eu não estava presente. Mas era a mim a quem devia de o ter dito. Não a outros. Era eu quem precisava dessas palavras. Sei que tem uma forma difícil de se expressar. Eu compreendo isso. Foi assim que cresceu. É assim que é. Mas não atiro as minhas falhas para cima de ninguém. Ninguém. As minhas falhas são todas minhas. Não o culpo, nem a ele nem a ninguém, delas. São minhas. Eles foram e são extraordinários. Tomara eu ter sido metade daquilo que eles foram e são. Só queria mesmo ser metade. E seria feliz. 

Não tenho descendência. Não tenho filhos. Nem isso lhes dei. Nem o prazer de ter netos. Dei sim, dou sim apenas preocupações. Muitas preocupações. E uma das coisas que gostava de fazer era não lhes partir mais coração. Mas nem isso sei se conseguirei fazer. 

São apenas as melhores pessoas do mundo. Eu sei que todos dizemos isto em relação aos nossos, mas os meus são mesmo as melhores pessoas do mundo. Nunca faltaram com nada. Sempre tentaram dar tudo. Da melhor forma como sabiam. Da melhor forma como sabem. Aqui, o defeito é meu. Tão somente meu. 

Hoje nasceu este texto e que me perdoes, mas hoje tenho alma pesada tenho mesmo alma pesada. Se houver alguém desse lado, mais uma vez o meu muito obrigado. Desejo que consigas cumprir tudo o que desejas. Que sejas generoso para com os teus. 

Não carrego inveja sobre ninguém. Não carrego inveja, não carrego ressentimento. Não invejo seja quem for. A sua fortuna, o seu azar. Quero mesmo o melhor para todos. Para mim, parece que não foi assim. E lamento. Lamento mesmo. 

 Até ao próximo texto. 

Fica bem 

13.06.22

... dos Hospitais com serviços encerrados


sobrevivente

 

 
Muito se tem hoje falado da quantidade de serviços fechados em várias unidades hospitalares.
 
O tema arrancou o dia com a morte de uma bebé no Centro Hospitalar do Oeste. Segundo o que foi tornado público, o recém nascido morreu durante o parto realizado nas Urgências, porque o serviço de Obstetrícia estava encerrado por falta de médicos.
 
O caso é trágico e dramático, mas a verdade é que são inúmeros os serviços hospitalares que estão muitas vezes encerrados. E importa, acima de tudo, perceber por que razão estão encerrados serviços em hospitais públicos.
 
Rapidamente surgiram violentas criticas ao Serviço Nacional de Saúde, à qualidade do Serviço Nacional de Saúde e a natural defesa do privado.
 
Curiosamente as criticas surgem todas de um dos lados da barricada política. Da Direita. E é natural que assim seja. Até porque. desde sempre, a Direita foi e é contra o Serviço Nacional de Saúde. 
 
O drama é que há muito que por pressão de lóbis, por actuação política dos sucessivos Governos, o Serviço Nacional de Saúde tem vindo a conhecer um enorme desinvestimento e natural degradação das suas condições. Não só têm piorado as condições e, obviamente, a qualidade dos serviços e cuidados prestados, como também têm vindo a se deteriorar as condições de trabalho de médicos e enfermeiros que exercem actividade profissional em hospitais públicos.
 
O Centro Hospitalar de Setúbal é o caso que quero dar como exemplo. 
 
Ali, onde deveria estar a trabalhar mais de duas dezenas de médicos estão apenas oito. Repito, oito. Como é que é possível responder às solicitações dos utentes, como é possível tratar de doentes, grávidas, crianças com tamanha falta de médicos? E isto acontece porque há anos e anos que se anda a retirar dinheiro dos hospitais.
 
A estratégia é simples de entender. Simples e terríveis.
 
A estratégia é desinvestir, degradar a tal ponto atá que a defesa das qualidades e vantagens do privado seja a opinião da generalidade das pessoas.
 
Não é incomum ouvir gente a se queixar dos hospitais e dos médicos. Digo desde já que as suas queixas são legitimas e compreendo-as. Mas é preciso perceber que tudo isso faz parte de uma estratégia que visa destruir o Serviço Nacional de Saúde e entregar tudo aos privados. E no dia em que isso acontecer, a Saúde será apenas um privilégio para quem tenha dinheiro. Seja para pagar imediatamente, seja para gastar em seguros de saúde feitos para não ser utilizados.
 
Por isso esta é uma matéria de grande sensibilidade.
 
É extremamente lamentável qualquer morte. Mas não nos enganemos, temos de saber realmente quem tem sangue nas mãos. Se os hospitais que se vêm privados de fundos para puder trabalhar, se quem decide que é preciso reduzir os gastos na Saúde. Um bem que é de todos.
11.06.22

.... da estratégia da Direita


sobrevivente
Uma das coisas que mais mexe comigo é a desonestidade. Principalmente quando em causa estão aqueles com responsabilidades políticas. Aqueles que escolheram o palco político e a actividade política como sua principal actividade. Alguns mesmo, profissionais da Política.
 
Sempre entendi a Política, talvez por ser velho, como o local, a área onde todos os que nela se envolvem e/ou participam têm, ou teriam, como objectivo uma tarefa maior. Teriam como objectivo, acreditava eu, o chamado "bem comum". Ou aquilo que entendem como "bem comum". Um conceito, um entendimento que pode variar de pessoa para pessoa, conforme o seu posicionamento político, a sua educação, a forma como vêm o Mundo. Mas esta era uma convicção minha. Uma convicção que acabou destruida rapidamente, mas que me deixou, confesso, como que orgulhoso do lado da barricada onde sempre me coloquei.
 
Trago este assunto porque vi recentemente, o "documentário" (e coloco documentário entre muitas muitas aspas) "What is a Woman?", de Matt Walsh.

 

Primeiro há que perceber quem é o autor. Este tal de Matt Walsh. 

Matt Walsh é um YouTuber, um comentador ultraconservador e um "jornalista" do The Daily Wire, uma publicação online ao nível da Breitbart, gerida por outro ultraconservador de seu nome Ben Shapiro. 

 

O "documentário" de Walsh, mais do que pretender esclarecer ou tentar contribuir para o debate acerca dos direitos LGBT, pretende acabar com esse debate. Ao longo de todo o "documentário", Walsh avança com um conjunto de falsas ideias, falsos argumentos contra a comunidade transsexual e em particular contra a existência de menores transsexuais. 

Para ele não existe qualquer diferença entre sexo e género. Walsh não entende que quando se abordam estes temas, se está a falar de assuntos absolutamente diferentes. O sexo é algo que tem origem e natureza biológica. O género é algo que resulta de uma construção social, de uma construção cultural.

Se um está directamente relacionando com o sexo de cada um(a). O outro está directamente relacionado com a forma como cada um(a) se entende e quer ser entendido(a).

Quando, por exemple, numa qualquer interacção social nos confrontamos com outra pessoa, a forma como esta se apresenta perante nós leva-nos a entender o outro como Homem ou Mulher. Em nenhuma circunstância, pedimos para se despir e confirmar aquilo que tem por entre as pernas, para que depois possamos definir o modo como nos relacionamos com o outro(a).

Walsh e a Direita, por absurdo, parecem defender que, em relação às crianças, se faça um exame ao seu órgão sexual para que possamos confirmar a forma, o modo como nos devemos dirigir a esta(e).

Afirma Walsh que "não existem crianças transsexuais" e vai mais longe, argumenta mesmo que "há crianças a mudar de sexo". Tudo mentira. Tudo desinformação. Tudo estratégia, canalhas estratégias para colocar a opinião pública do seu lado. Do lado das suas convicções políticas.

A verdade, e se o(a) leitor(a) me permite, é que Walsh nada se preocupa ou interessa com os problemas associados à existência, às condições existenciais destas comunidades. Walsh encontrou sim foi forma de lucrar, e muito, jogando com os medos de milhares e milhares de pais.

Jogando com esse medo, diz-se "especialista em matérias de transsexualidade em menores", titulo que nenhuma entidade ou organização lhe atribuiu, e que ele reclama apenas porque tem um livro vendido na Amazon.

A intenção de Walsh não é, nunca foi contribuir para um debate que afecta tantos milhares de pessoas, de crianças às suas famílias, e prova disso mesmo é ter colocado o seu "documentário" por detrás de uma pay-wall. Ou seja, quem desejar ver o seu trabalho terá que pagar. 

O objectivo não é participar na construção de um diálogo com vista à melhoria do "bem comum", mas se aproveitar de um tema que marca a actualdade e explorar o mesmo economicamente. Sem qualquer pudor. Ele não pretende resolver nada, quer apenas facturar. Encontrou uma forma de fazer rapidamente uns quantos milhares de dólares, enquanto destrói qualquer tipo de discussão saudável e construtiva. Pouco lhe importa as condições em que vivem as crianças e as suas famílias. Para ele, o valor maior é o dinheiro.

Por isso e voltando ao início, acho incrível que alguém se aproveite do sofrimento, um sofrimento que real e diário, de milhares e milhares de crianças e pais, apenas para disso retirar lucro, distorcer um debate que teremos que fazer de forma séria, e tentar trazer a opinião pública para o seu lado da barricada. Para o lado ultraconservador, onde tudo o que não entra nos seus padrões morais, não existe e deve ser ignorado. Onde tudo o que perturba e incomoda a sua forma de ver o Mundo, é algo que merece ser reprimido e formatado à medida da sua visão e forma de ver o Mundo.

Na verdade Walsh não entende nem compreende a diversidade. Para ele a diversidade é algo desviante, logo, merecedor de ser reprimido. 

Matt Walsh encontrou uma forma de fazer milhões e depressa. Ignorando todos aqueles que se confrontam, que lutam contra um preconceito que os oprime, desrespeita e os marginaliza. 

O que Walsh quer não é o bem das crianças, ou o bem comum. O que Walsh pretende é dinheiro. É o capital aquilo que o move. Infelizmente.

Os argumentos que apresenta são tão fora que a dado ponto no seu "documentário", entrevista uma rapariga que se identifica como rapaz, e pede a esta para que ela lhe mostre o peito. 

Tão fora e tão decidido que estava em mostrar o seu ponto, o seu argumento, não percebeu que acabou por colocar em filme o peito nú de uma rapariga (como ele defende) com apenas 15 anos!!! Algo, acho eu, ser crime em qualquer parte do Mundo.

Em Portugal este é um debate que ainda não se fez mas que acabará por acontecer. Um dia teremos todos que olhar para esta realidade, para os problemas que assolam várias das nossas crianças, e vamos ter que ter este debate. Espero que nessa altura nos concentremos nas crianças, nos seus problemas, nos desafios que enfrentam e não na manipulação da opinião pública, tentado angariar apoios para um dos lados da barricada desinformando, denegrindo, mentindo, manipulando e assustando.

Este é um debate que, para quem o vive diariamente, significa as suas vidas. E isso vale muito mais do que um punhado de votos. Ou uns milhares de euros na conta bancária.

 

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