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Da Arte da Sobrevivência

29.05.22

... de uma espécie de introdução


sobrevivente

 

ponto de amaragem de embarcações, Cacilhas, Almada, Lisboa (2022)

O momento estava garantido. Era certo.

Não ocorresse nenhuma fatalidade pelo caminho, não trabalhasse eu contra a possibilidade desse momento chegar, e ele entraria na minha Vida quase que como não anunciado.

Fiz quarenta e oito anos há cerca de um mês. Quarenta e oito anos. Curiosamente, nunca me tinha imaginado com esta idade. Em miúdo imaginava ter trinta, quarenta ou quarenta e cinco, mas nunca quarenta e oito. Nunca fui tão específico quanto a isso. Imaginava-me velho, isso sim. Pensava, dizia "quando for velho" isto e aquilo.

A verdade é que são agora quarenta e oito. Aliás um pouco mais do que apenas quarenta e oito.

A verdade é que sou hoje, um Homem com mais Passado do que Futuro.

E quanto a isso, vou deixar aquelas que são verdadeiramente, as minhas principais preocupações.
Sabendo que tenho muito mais Ontem do que Amanhã, aterroriza-me a ideia de perder os meus. Sinto uma gratidão enorme, uma oferta enorme ter contado com a presença dos meus durante toda, ou a maior parte da minha Vida e de eles serem absolutamente extraordinários. Tenho e sinto essa dívida de gratidão para com ou quem seja lá quem for ou o que for, mas sei que me é impossível de retribuir essa bênção. E entristece-me não poder proporcionar algo assim também a outro. A outros.
Sabendo que tenho muito mais Ontem do que Amanhã, sei que há um milhão de grandes histórias por contar. Histórias extraordinárias e que andam por aí. Dispersas. Histórias que podem mesmo desaparecer porque são as histórias da Vida de pessoas anónimas mas com trajectos tremendos. E todas essas pessoas, toda essa gente tem algo de muito significativo, profundo, tocante para dizer aos que depois delas virão.

Gostava que o meu manuscrito guarda-se todas essas histórias. Que fizesse essa ponte.
Saber que tenho muito mais Ontem do que Amanhã, é algo com o qual lido bem. Pelo menos ao dia de hoje. Mas é também algo que me pesa um pouco. Pesa no sentido de tanto existir ainda por experienciar, sentir, fazer, criar, viver.
Talvez por isso encaro, por estes dias, a Vida como algo de urgente. É urgente viver.

 

Sabendo que tenho muito mais Ontem do que Amanhã, mexe comigo a ideia de não me voltar a apaixonar, a amar e a viver um grande amor. Se assim tiver de ser será, mas é algo que me deixa triste.

 

Sabendo que tenho muito mais Ontem do que Amanhã, continua a me surpreender a imaturidade de muitos e muitas que me rodeiam. Que povoam o meu quotidiano. Dos muitos que têm passado pela minha Vida. Confesso que desconheço se essa imaturidade é imaturidade pura e simples, ou se surge de forma deliberada, fruto das suas tentativas de se protegerem da realidade, porque certamente também eles sabem e entendem que há muito mais Ontem do que Amanhã. 

Sabendo que tenho muito mais Ontem do que Amanhã, aperta-me o peito saber que em nada ajudei o todo durante a minha passagem, Que serei mais um por entre os membros do Exercito dos Esquecidos. Que em nada ou de forma alguma, terei tocado em algo que tenha terminado num contributo para a generalidade dos meus companheiros de viagem. Seja para estes, seja para os virão a seguir. A realidade é que não acredito puder ainda vir a vencer a Batalha do Tempo, nem tão pouco acabar por constar como uma nota de rodapé ou nota bibliográfica seja do que for.

Sabendo que tenho muito mais Ontem do que Amanhã, e sem querer ser pessimista mas apenas re alista, apesar de todos os sonhos, de todos os desejos, de todas as nossas aspirações nos vários momentos das nossas Vidas, eu, pessoalmente, não tenho muito para deixar ficar. Nem mesmo como prova da minha passagem por aqui. E isso, pesa-me. Muito.

Sabendo que tenho muito mais Ontem do que Amanhã, encaro todas as oportunidades que se me surgem ao caminho com uma satisfação, um entusiasmo, uma alegria que apenas é típica das crianças. Para mim, que nada deixo ou tenho a perder, tudo aquilo que se me chega é uma dádiva que o Universo resolve me presentear. E eu agradeço.

Sabendo que tenho muito mais Ontem do que Amanhã, gostava de puder vir a escrever um conjunto de textos, minimamente bons, para levar a palavra, o sentimento, o viver do meu Tempo, até aos que vêm depois de mim. Gosto da ideia de, mais do que um livro de poesia, filosofia ou ensaio, deixar um manuscrito dando conta do que é viver por estes dias. Viver no final do século passado, no arranque deste novo. No inicio dos inícios da internet. No tempo do consumo da imagem. Do culto da juventude. No tempo da superficialidade. Enfim, acerca do que é (ou foi) viver "no meu Tempo". E que com isso consiga levar alguma experiencia, algum humor, algum conhecimento aos que, por alguma razão, dedicarem a esse manuscrito, a sua atenção.